"Convivendo com os Animais e os Micróbios" - Oficina de Teatro

Sempre que uma criança coloca seu talento a serviço do mundo, cresce a esperança de uma vida melhor

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Sempre que uma criança coloca seu talento a serviço do mundo, cresce a esperança de uma vida melhor.

MICA 23 anos

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MICA 20 anos - Depoimento de Juliana Soares




Quando a minha mãe me pediu para que eu escrevesse esse texto, ela estava na minha casa em Brasília. Mesmo sendo a casa dos meus pais o meu verdadeiro lar e porto seguro, indiferente de quantos anos eu tenha, mas demorei muito até entregar isso, porque além de estar num momento muito importante da minha vida, é sempre muito difícil escrever alguma coisa sobre nós, ou sobre nossa história. Porque a minha história de vida faz parte da história do Mica e vice e versa.
Eu não me lembro quantos anos eu tinha quando tudo começou, mas tenho certeza que minha mãe sim. Eu nunca tive boa memória e continuo não tendo, mas tenho sorte na vida, o que é muito melhor que memória, porque as boas coisas a gente sempre lembra!
Como ser comum não é o meu forte, vou fazer diferente, contar a história de trás pra frente.
Hoje é dia 18 de agosto de 2012, estou em Manchester- Inglaterra, organizando a aclimatação da delegação Paralímpica Brasileira, onde estamos prestes a embarcar para Londres, para o momento mais importante de muitas vidas aqui.
Sou a administradora do departamento de Saúde, Doping e Classificação, três departamentos necessários para uma competição, e que muitas vezes nem acreditei que poderia chegar aqui, onde somente 320 pessoas estão, numa Paralimpíada, mas outras pessoas acreditaram.
Há um ano atrás estava em Guadalajara,México, nos Jogos Parapan-Americanos, onde vi o que é um grande evento e onde nós brasileiros somos bons, mas isso somente aconteceu porque alguém me incentivou a fazer o meu máximo.
Alguns meses antes estava enfrentando uma dificuldade que tenho, aprender outro idioma, e não vou negar, foi muito bom! Serão momentos que nunca vou me esquecer, morar fora não é apenas uma experiência inacreditável, mas altamente engrandecedora, é inexplicável essa possibilidade. Mas isso que tive, onde não precisei me preocupar com nada além do que tinha me proposto a fazer não seria possível se alguém não tivesse me apoiado.
Durante anos fiquei em busca de uma coisa que talvez nunca alcançasse, trabalhar com pessoas deficientes e sobreviver disso. Convivi com pessoas das quais a maioria da população nem se quer tenha visto, quanto mais convivido. Quem já foi de carona no carro de um tetraplégico dirigindo? Ou, quem já foi a uma festa, onde talvez você seja uma das poucas que escuta, ou a uma festa que você teve que fazer metade de um bar sair das mesas e trocar por que seus amigos cadeirantes não chegavam ao mezanino? Mas mesmo com dificuldade e estranheza alguém me compreendia.
Com 17 anos todos nós temos que fazer uma escolha, o famoso “o que quero ser quando crescer”, que quem tiver dúvida estou afirmando aqui, ninguém sabe exatamente o que quer ser com 17 anos, e como a grande maioria quase escolhi a alternativa errada. Prestei faculdade de engenharia, e se a pessoa que me conhece está lendo isso, sabe muito bem que eu não tenho nada haver com ficar parada e só pensando, sou hiperativa, tenho que gastar isso dentro de mim. Mas somente quando fui chamada para uma segunda chamada da lista, alguém me instruiu e me fez ver que essa não seria a melhor escolha, mas algo mais próximo do que eu sou.
Anos antes fui bailarina, e muitos antes também, mais de 10 anos nessa vida, pois isso é uma escolha de vida, como ser parte de um grupo, um clã. Não posso dizer que não aproveitei minha adolescência, mas certamente não aproveitei da mesma maneira que muitas outras meninas da minha idade, pois enquanto elas faziam o que toda menina faz com 17 anos, eu estava num palco, ou sábado de manhã enquanto estavam dormindo eu estava fazendo um coque e me alongando, ou quando elas estavam saindo para passear e eu querendo um fisioterapeuta pra cuidar do que eu mesma tinha estragado.
Mas isso foi o que eu queria, e sempre tive quem me desse suporte para essas escolhas, e sempre tinha alguém na primeira fila para chorar, aplaudir, “corujar” e  me amar. Foram momentos que me transformaram no que sou e no que eu queria ser.
Até chegar no que eu realmente queria fazer (dançar) fiz muita outras coisas, pintura, piano, violão, teclado, coral, desenho, teatro... e sei lá mais o que, foi tanta coisa que fiz que nem me lembro.
Mas como eu disse antes que a minha memória não é muita boa, mas tenho certeza que esse início vai ser bem relatado por outros, pois esse depoimento não foi feito somente para os 20 anos do Mica, onde eu cresci, mas para tentar agradecer a alguém que acreditou, incentivou, apoiou, compreendeu, instruiu, e me ama, e que faz tudo por mim, e por centenas de crianças. Essa pessoa me incluiu num mundo muito melhor, num mundo de possibilidades, sonhos e realidades, fez com que eu pudesse experimentar todo o tipo de atividade, o que me faz ser hoje muito mais criativa e confiante, e que nunca devo desistir, que me faz ser uma pessoa, como disse, diferente.
Essa pessoa é minha mãe!
Mas não tenho que agradecer somente a ela, mas a cada professor e professora do Mica, do meu primeiro professor de pintura (Severino) na biblioteca à minha última professora de ballet na Royal Academy of Dance (Dona Araci), porque cada pessoa que me ensinou algo é muito importante.
Daqui se encerra o meu depoimento, pois já são 23h e o meu plantão na secretaria dos Jogos acabou. Muito obrigada a todos por fazerem parte da concretização do meu objetivo. Todos vocês tiveram um papel fundamental nessa caminhada.

Te amo mãe!

4 comentários:

  1. Juliana Soares, Parabéns!!! Eu, curti tua história e me emocionei.
    As mães são sempre o nosso anjo guardião, que vêem, e as vezes
    sentem, o prisma dos seus filhos. Que Deus te abençoe sempre.
    E também parabenizo-te por fazer parte do MICA!
    Cordialmente
    Fraternal abraço
    Maura Fernandes

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  2. Olá Juliana e Maria,
    Muito bonita a história do Mica, o seu depoimento, e também as palavras da sua mãe. Eu fiquei especialmente comovida, talvez por que isso tudo também faz parte de mim, e acredito piamente na influência da Arte na vida das pessoas, especialmente quando ainda se é criança...
    Felizmente você teve acesso a arte, mas muitas crianças não tem, não tem sequer uma orientação nesse sentido, alguém que possa fazê-los descobrir um dote natural, principalmente as de origem mais humilde...
    Acredito que toda criança tem um dom natural, mas muitas vezes ela nem sequer faz ideia do que seja, e por isso acho fundamental um trabalho que faça esse tipo de inclusão , não somente a crianças especiais, mas aquelas que residem em comunidades mais carentes, e que podem se tornar pessoas incríveis.
    Acho que sua mãe tem toda razão, a arte é facilitadora em muitos processos de desenvolvimento da criança, aliás ela é fundamental, capaz de salvar muitas vidas...
    Eu mesma nasci abençoada com uma sensibilidade incrível, mas nunca soube lidar com ela, e muitas vezes fui criticada erroneamente, passando por situações de sofrimento que poderiam ter sido bem diferentes se eu tivesse tido acesso a arte.
    Parabéns pelo trabalho de vocês !
    Eu também tenho muita vontade de construir algo assim.
    Abraços, Luciana Magalhães

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    Respostas
    1. Luciana
      Muito obrigada pelas palavras de carinho e incentivo ao nosso trabalho. De onde você é? O que faz? Divulgue nossos concursos de arte para as crianças que você tem contato. Grande abraço.Maria José Soares

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